9 de junho de 2017

Heavy Metal, Rock e Blues: minhas considerações


Na imagem: à esquerda, Jimi Hendrix. Na direita, Howlin' Wolf e na parte de baixo Black Sabbath.

O rock pesado. Sim, ele já existia nos anos 60 e eu o encontro em bandas como Beatles, Who, MC5, Doors, Animals, Hendrix e em muitas outras. De fato na época nunca houve bandas que seguissem tal ritmo especificamente e isso só veio de modo sólido com bandas no final da década de 60 e início de 70 em dois segmentos: Hard Rock e Heavy Metal. Então como se enquadra o rock pesado nisso? Onde termina o hard rock e se inicia o Heavy Metal?

O termo "rock pesado" (do inglês heavy rock) é uma forma genérica pra diversos subgêneros da música rock em que se é executado de uma forma enérgica e destoante de outros rock. Seja pela parte instrumental, pelo vocal e/ ou, geralmente, por ambos. Por exemplo, na década de 70 Aerosmith já era rock pesado. O punk do Discharge era rock pesado. Linkin Park é rock pesado. E o que eles têm em comum? Pouca coisa exceto que todas elas não tocavam Heavy Metal. Mas e então? 


Bem, Heavy Metal não é sinônimo de rock pesado como também não é de blues pesado. Heavy Metal é sinônimo apenas dele mesmo, Heavy Metal. E embora houvesse bandas que tocassem música pesada desde a década de 60 isso não quer dizer necessariamente que elas fossem Heavy Metal. Heavy Metal é um estilo próprio com suas bases e definições e não um termo guarda-chuva. É um estilo que transcendeu suas origens assim como o rock and roll transcendeu o blues e o country.

Mas Heavy Metal é um tipo de rock pesado, certo? Olha, eu prefiro dizer que Heavy Metal sequer é um tipo de rock. Penso que colocar o Heavy Metal como um tipo de rock pesado é, na verdade, muito impreciso e simplista e não faz jus às suas raízes.

Heavy Metal está para o rock tanto quanto para o blues mesmo não sendo nenhum dos dois estilos e ainda assim tendo estes dois como formação dele próprio. E vale dizer que nessa época, década de 60, o rock já havia se separado bastante musicalmente do blues. Coisa que não tinha ocorrido na década anterior pois rock and roll era essencialmente a mistura de blues e country.

O Hard Rock, heterogêneo e vindo de vários ritmos dentro do próprio rock, sim é um tipo de rock pesado e, por consequência, um legítimo filho do rock and roll iniciado por Little Richard, Elvis Presley, Chuck Berry e outros mesmo tendo alguma influência mais leve de blues. Mas Heavy Metal... não.
O Heavy Metal nasceu dentro do contexto das bandas britânicas de blues que, embora dentro da cena comercial do rock, estava também próximo do blues musicalmente falando. Quando o rock já havia se separado quase que por completo do blues o Heavy Metal surge como um resgate porém de forma inovadora.

Se por um lado o Heavy Metal tenha sido influenciado pelo classic rock dos anos 60, por outro ele era uma nova forma de se fazer blues vindo do blues elétrico que se tinha em Chicago. Com os diferenciais de algo mais agressivo e enérgico do próprio blues enérgico britânico e acabando por criar algo totalmente novo que era pegar notas de blues mas basear a música em riffs. Que aliás, riffs eram muito pouco usados na época.


Assim, tudo que veio fortemente influenciado por essa forma de se fazer música ficou conhecido como Heavy Metal. Claro que, pouco tempo depois esta música mudou e muito do que era próximo do blues musicalmente acabou sendo tirado pra lapidar ainda mais o estilo. E é isso o que faz do Heavy Metal o que ele é.

6 de fevereiro de 2017

O que podemos aprender com a greve de policiais




A literatura política mainstream diz que a polícia existe para a manutenção da ordem social, do cumprimento das leis entre outras questões. Mas ela pouco (ou nada) fala sobre o que a literatura política marginal diz sobre o seu papel da manutenção do poder das classes dominantes.
Pois bem, até o presente momento a polícia militar do estado do Espírito Santo está em greve exigindo melhores condições de trabalho e a situação na região está em calamidade. Com a polícia fora das ruas os casos de violência cresceram espantosamente, lembrando muito histórias de Frank Miller. Com esta situação declarada eu meu pergunto já que a polícia existe pra servir e proteger a população por que ela não está cumprindo o seu suposto papel e o que o governo capixaba tem feito a respeito?


Ora, eu não estou aqui defendendo que pessoas devam trabalhar de forma forçada. Isso seria escravidão. E nem que os anseios dos policiais devam ser acolhidos. Isso seria masoquismo. Contudo, não é justo que o resto da população, notadamente as camadas mais frágeis economicamente, sofra com os problemas que não são de responsabilidades delas, geradas por instituições que não as representa. O que se tem visto são saques, violência corporal, hospitais e escolas fechadas e dentre outras ocorrências.
Sim, a polícia está para a manutenção da ordem e do cumprimento da lei mas desde que estas sejam estabelecidas pelas elites dominantes. E isso é notório ao vermos que quem está dando a cara à tapa nos protestos não são os próprios policiais, uma vez que eles podem sofrer represálias (correndo risco de prisão), mas seus familiares que estão na linha de frente. E também o fato de que a maior preocupação do governo capixaba não é manter a população protegida, mas conter o motim através do apoio do exército. Afinal, tal mecanismo criado não existe à toa e seria ingênuo acreditar que as classes dominantes fariam leis que os prejudicasse. Ou se está com o estado ou não está. E polícia que não segue ordens, pela lógica estatal, se torna criminosa.

No meio de tudo isso eu penso o quão necessário é a sociedade civil se mobilizar em construir instituições comunitárias de auto-defesa para se proteger de pessoas violentas (sejam elas amparadas ou não pela lei). Não é justo a máquina estatal ter o monopólio da defesa e sujeitar a todos com instituições desumanas por natureza e, nos momentos mais delicados, deixar a população impotente frente a situações de grande risco. Até quando iremos tolerar estes abusos?

14 de dezembro de 2016

O livre mercado sob a perspectiva anarquista



Na doutrina liberal, a economia de livre mercado é normalmente definida como um modelo de mercado com mínima intervenção do governo. Claro que o “mínimo” aqui varia, pois nível de intervenção para, por exemplo, o liberalismo do século XIX não é exatamente o mesmo para as correntes posteriores. E com o surgimento de novas escolas liberais essa questão ganhou mais outros significados. Vejamos o ultraliberalismo, corrente esta que defende a completa privatização das funções do estado.
Segundo o pensamento ultraliberal, um livre mercado genuíno é um arranjo econômico baseado inteiramente na economia de mercado, isto é, todas as transações executadas por intermédio do laissez-faire, sem qualquer intervenção estatal. Desse modo, diz-se que nenhum tipo de intervenção na economia pode ser considerada como parte de um livre mercado de fato. Mas vamos analisar essas questões de um outro ponto de vista.

Dentre as diversas teorias econômicas anti-capitalistas, sobretudo daquelas pró-mercado, as definições liberais geram algumas contradições. Vejamos o anarquismo, mais precisamente da corrente clássica, do filósofo francês Pierre-Joseph Proudhon, que era favorável aos mercados. Sim, favorável desde que contasse com instituições e arranjos comerciais para um funcionamento distinto do modelo capitalista apregoado pelo liberalismo. O que nos leva a concluir que o anarquismo nunca fez coro com o liberalismo.
Embora favorável a uma economia de mercado sem políticas forçadas, Proudhon também era favorável a políticas econômicas intervencionistas. Isso porque o intervencionismo, que nada mais é que uma forma de governança, necessariamente não precisa estar ligado a uma entidade que monopoliza e centraliza o poder como é o caso do intervencionismo estatal. Esta era a visão do filósofo francês.

Indo além, a concepção de “Banco do povo" descrito por Proudhon, que nada mais é que uma cooperativa de crédito, dever-se-ia ter uma governança em nível local com políticas econômicas postas em prática por todos de uma comunidade por participação popular, e não puramente pelos mercados. Vale ressaltar que Proudhon sempre foi cético à ideia absoluta do laissez-faire e por isso sua economia anarquista, embora agindo inteiramente livre de qualquer ação forçada, não se encaixa nas idéias liberais. Ora, não precisa ser nenhum gênio para perceber que nos mercados nem sempre a oferta reflete verdadeiramente a vontade de um indivíduo, mas de uma média dos quereres de vários indivíduos (às vezes nem isso). Na verdade, isso é o mais comum de ocorrer dado o modelo de produção em larga escala do sistema capitalista. Quer dizer, um arranjo que pouco respeita a autonomia de escolha das pessoas. Daí que o anarquismo abre espaço para outros modelos econômicos além do mercado. Ao invés da lei da oferta e demanda agindo de maneira absoluta, governança popular atuando de maneira livre, descentralizada e democrática em cada comunidade e federação.

O cerne do pensamento anarquista baseia-se em algum tipo programa político de governança coletiva, porém buscando respeitar a vontade de cada pessoa e ser executado pelo povo e para o povo. Se livre mercado for simplesmente sinônimo de um arranjo econômico mercadológico atuando em livre escolha mas também aberto a funcionar por bases anti-capitalistas, então existe espaço para esse modelo no anarquismo descrito por Proudhon. Contudo, se livre mercado estiver inerentemente ligado a fatores como a negação de uma governança livre e/ ou, principalmente, na consagração de instituições que permitam a existência de terras absenteístas e rentistas, estruturas que produzam grande acúmulo de capital e, como consequência, sua concentração, isto é, a base do sistema capitalista sustentada pelo liberalismo, então a proposta anarquista não somente é incompatível com um livre mercado como também se coloca em oposição.

De um modo geral, o anarquismo nunca se atrelou firmemente em apoio a economia de mercado, mesmo de viés anti-capitalista. O grosso do movimento libertário sempre foi muito hostil a tal modelo. Dentro da história moderna é sabido que sempre que houve políticas que deixassem os mercados agirem com maior ou menor grau de liberdade resultava em grupos privilegiados perante as classes sociais mais debilitadas.